A complexa relação entre jornalismo e audiência na era das redes sociais de ódio

Vamos fazer um pequeno exercício para começar este texto. Quantos jornais impressos existem na sua cidade hoje em dia? Se você viver em um grande centro talvez essa resposta seja um número alto, algo de 5 a 10. Se viver no interior é possível que a resposta seja próxima a zero. Agora pense em quantas bancas de revistas se mantém ativas em seu município? Quais delas não estão aproveitando o espaço pra vender assessórios de celular, comida, bebidas e qualquer outra coisa, menos revistas?

Esses dois exercícios servem como uma pequena amostragem que escancara os fatos: os meios impressos estão caindo em desuso. É extremo falar que estejam morrendo, mas o cenário atual indica para um decréscimo cada vez maior. Alguns veículos simplesmente fecham as portas, outros migram para assinaturas digitais ou focam apenas em conteúdo web. As redações continuam lá, mas elas conseguem bater de frente com as redes sociais?

Nenhuma redação possui tanta gente escrevendo e produzindo conteúdo quanto as redes sociais. Este é o primeiro cenário que os veículos precisam enfrentar, buscando relevância em um meio que está soterrado de informações. O grande fluxo de conteúdo das redes também altera o comportamento do leitor, que cada vez mais se contenta com uma leitura dinâmica (que muitas vezes não passa do título que fica na thumbnail do Facebook), e está mais preocupado em comentar sua opinião do que, de fato, entender o que está sendo vinculado ali.

Apesar dos pesares, os veículos muitas vezes não se incomodam com os comentários violentos de sua audiência. A internet vive a velha máxima do “falem bem ou falem mal, mas falem de mim”, onde para muitos veículos o engajamento já basta, mesmo que ele seja feito apenas com haters. Os tais algoritmos também não colaboram com isso, já que o conteúdo aparecerá mais para aqueles que constantemente interagem com sua página. Ou seja, haters gonna hate mesmo!

Em meio a tudo isso, os veículos precisam pensar em estratégias para manterem-se relevantes perante uma audiência cada vez mais dominada por pessoas tóxicas. Muitos veículos exploram conteúdos rasos, com o objetivo de gerar um engajamento mais pacífico de seu público nas redes. Alguns parecem estar encontrando melhores alternativas dentro desse cenário, buscando explorar pautas locais ou curiosas, que atraiam a atenção dos leitores locais e não deem margem para polêmicas vazias.

Outra ideia é explorar um nicho de mercado próprio, como veículos especializados em certos temas como economia e direito. Estes abordam a estratégia de oferecer conteúdo exclusivo e de qualidade. Tal aspecto colabora para impulsionar assinaturas pagas, algo que ocorrerá de forma menos eficiente em veículos que tentam abordar pautas gerais, ou que trabalham com temáticas mais facilmente encontradas em blogs e sites de conteúdo gratuito.

O mundo digital está dominado por fake news e por um público que, cada vez menos, se interessa profundamente por um assunto. Ainda mais quando este assunto for contra as suas opiniões e crenças. Cabe a nós, jornalistas, encontrar nossa posição neste cenário desafiador, lutar contra os haters usando como arma a informação e pensar sempre nos benefícios (e malefícios) que nossos conteúdos podem trazer. Precisamos voltar a nos preocupar menos com os likes e mais com o impacto real de nossas palavras.

Por: Vicente Pardo, jornalista da Reverso Comunicação Integrada